Histórias de mães

TRANSFORMAÇÃO INTENSA

Ser mãe é uma experiência altamente transformadora, difícil de explicar a quem nunca foi, é uma gangorra com movimentos constantes entre o trabalho, amor e prazer.

Minha vida e rotina hoje têm um nome, uma alma, minha criança chamada: Vinicius.

Sempre me achei muito feliz, mas tudo isso é pouco diante de tudo o que vivo e sinto agora.

Milagre da vida é sem dúvida isso que se lê ou sente ao receber a notícia de que há um ser crescendo dentro da gente.

Descendente diretíssima de São Tomé, aquele que precisa ver para crer, me peguei perguntando infinitas vezes: “Será mesmo verdade?”, “Serei mãe?” Confesso que mesmo hoje – vendo – ainda custo a acreditar que sou e que sou tão feliz... Freud deve explicar...

Ao descobrir-me grávida, uma emoção tomou conta de mim. A descoberta deu-se de modo gradual. Desde o começo meu corpo e minha intuição davam sinais claríssimos que meu ser concreto demorou um tanto a captar. Os sinais jorravam pacientemente um após o outro, até que eu me desse conta do milagre... Na noite em que engravidei disse a mim mesma que tinha acontecido. Julguei ser bobagem, já que dias depois menstruei. Uma queda de pressão estranha logo após um almoço deveria ter feito o alarde, mais uma vez duvidei. Algo dentro de mim parecia saltitar, fazer festa de inúmeras maneiras e ainda assim eu não via. Uma brincadeira com amigas no elevador, assim de sopetão e sem pensar, disse a elas que eu estava grávida. Elas riram e meio espantadas questionaram se era verdade. Eu lhes disse que sim, “pura gozação” – hoje percebo que o meu eu mais íntimo já tinha sacado tudo, apenas esperava com paciência que a minha consciência concreta descobrisse também. Mas tudo ao seu tempo. Comecei a olhar mais para crianças. Um carrossel de fatos girava ao meu redor com luminosos incessantes: “você está grávida, você está grávida, você está grávida....”.

Mas o que me fez de fato sentir esta possibilidade foi uma reunião com amigos em um trabalho voluntário que faço há dez anos com jovens. Dezembro, Natal chegando e o nosso tradicional amigo secreto. Ao rever meus amigos naquele sábado, algo diferente aconteceu. Não sei bem ao certo o que foi, senti-me extremamente sensível. Olhei para cada um dos meus amigos de um jeito diferente, ouvi “várias vozes” brincando e falando em volta de mim. Na prece de abertura da nossa reunião senti um acolhimento, um amor tão grande e toda a reunião uma emoção e a constante idéia: “estou grávida’’. Amigo secreto feito e descoberto, pediram-me que eu fizesse a prece de encerramento. Emoção total. Fui para casa mexida, intrigada. No dia seguinte, um domingo, senti vontade de cozinhar para minha família: eu e meu marido, eu mal sabia, mas seria nosso primeiro almoço a três... (Detalhe: cozinho bem, mas é algo quase raro em minha vida, cozinhar nem sempre me parece um prazer). Fui ao mercado comprar o que precisava, e a idéia de estar grávida não saía da minha cabeça. Fui até a farmácia, mas não tinham o teste que eu queria. Deixei prá lá, descobriria no dia seguinte.

Na segunda-feira trabalhei normalmente, e fui almoçar com minha amiga Mary Joe, ríamos muito de tudo, almas afins que somos, tínhamos um excelente entrosamento. E uma brincadeira sua durante o almoço despertou-me novamente a idéia de estar grávida. Terminamos o almoço e ela despediu-se apressada para resolver suas questões de um lado e eu apressada para o outro, voei até a farmácia. Comprei e fiz o teste e fiquei ali no banheiro do trabalho esperando os três minutos mais longos da minha vida, o resultado que todo meu ser já sabia...

O teste parece um termômetro e o surgimento de uma linha azul indica um novo horizonte, uma nova vida, uma gestação. A linha do meu horizonte se fez, e se fez em mim uma grande tremedeira, uma enorme emoção, entre lágrimas e sorrisos falei pela primeira vez com meu filho. Acariciando a minha barriga, agradeci pela vida que crescia dentro de mim e também por ele, meu filho ter esperado e ter tido paciência com o tempo que eu precisava para ser sua mãe. Fiquei meia hora no banheiro chorando, rindo, acariciando minha barriga, me olhando no espelho à espera de sinais e também me acalmando.

A sensação que eu tinha era que estava escrito no meu rosto, na minha testa o resultado. Meus olhos brilhavam mais do que pedras preciosas, meu coração tremia mais que as maracas, descompassado batia tão rápido e com tanto amor. Voei até o ambulatório, ansiosa e alegre pedi que o médico me encaminhasse para o hospital para um exame de sangue que confirmasse a novidade que meu coração já sabia.

Fiz o exame na manhã seguinte e precisei segurar a onda, mantive silêncio, a muito custo até que na quarta-feira, dia 06 de dezembro de 2006, saísse o resultado. Decidi que contaria primeiro ao meu marido, e que só o faria com o resultado oficial em mãos e pessoalmente, queria ver as suas emoções ao vivo e a cores.

Trabalhamos os dois em São Paulo, vamos e voltamos juntos diariamente para São Bernardo do Campo. Às quartas-feiras como é o rodízio da placa do nosso carro, volto de carona até São Caetano do Sul e nos encontramos por lá. Nenhum outro lugar poderia ser mais perfeito para dar a notícia, já que nos conhecemos, começamos a namorar e nos casamos em São Caetano...

Comprei um sabonetinho para bebês, um bombom “sonho de valsa’’ e por “acaso” peguei um jornalzinho de bairro que continha uma matéria especial sobre bebês, coloquei tudo num envelope junto com o resultado do exame. Meu marido chegou todo apressado querendo logo ir para casa. Dei-lhe um beijo e disse que primeiro gostaria de antecipar o seu presente de Natal. Óbvio que ele retrucou, “Lu, não pode ser em casa? Quero chegar logo...” Eu lhe disse que não e que abrisse rápido o presente, assim logo estaria em casa... Ele abriu meio contrariado, meio surpreso e curioso cheio de perguntas, disse não estar entendendo, blá-blá-blá... até que um longo silêncio se fez... E a pergunta: “Lu, você está grávida?” Sim, eu disse. E o que seguiu-se então foi uma sucessão de fatos amorosos. Ele ficou vermelho e com o rosto cheio de lágrimas disse que “achava” que ia chorar... E nós dois ríamos feito duas crianças e nos enchíamos de beijos e alegrias.
Caía uma chuva torrencial, e fomos para a casa dos meus sogros contar pessoalmente a novidade. E de lá, com toda a família reunida, contei para o meu pai.

Tudo foi festa, o primeiro exame, a primeira consulta Pré-Natal, o primeiro ultrasson: eu tinha dentro de mim, um milagre da vida crescendo através de mim. Assim meu bebê foi se desenvolvendo, senti muito sono, tive apenas três grandes e fortes enjôos, incontáveis azias e alegrias.
Comemoramos o Natal, Ano Novo, Carnaval e todas as datas agora a três, plena e intensamente, com alegria e muito amor.
O primeiro trimestre da minha gestação foi assim marcado por festejos e pelo compartilhar da novidade com aqueles que nos são caros.

As águas de março chegaram e com elas um pequeno grande susto, assim sem aviso prévio, do nada, tive uma dorzinha incômoda próximo ao umbigo e um grande sangramento. Apreensão e envolta a sentimentos temerosos, fui correndo ao hospital. Uma suspeita, um mioma, um susto e um veredito do meu médico: está tudo bem com o bebê, mas você precisará tomar alguns cuidados.

Dr. Fernando é meu médico há uma década, tempo suficiente para uma observadora como eu, perceber sinais em suas palavras e feições. Ele é muito calmo, ponderado e transmite muita confiança. Foi dizendo-me dos riscos, dos cuidados que eu teria que ter, aconselhando-me, acalmando e até acarinhando minha alma preocupada de mãe. Generoso, ele acalmou e orientou o meu ser. Apenas despertou em mim uma curiosidade, porque seu tom ao falar-me teria sido tão preocupado, seu semblante sempre tão sereno, mostrava-me pontas de apreensão? Naquela consulta, antes de sair de seu consultório, ele prescreveu-me enfaticamente além das recomendações de repouso, medicações que eu me apegasse a tudo o que era não material. O seu semblante, as palavras, a expressão ecoavam em meu ser diariamente desde então. E uma pergunta que eu nunca ousei fazer: Por que doutor?

O mioma tinha 7,5 cm e sangrou durante quase dois meses.

Desde que eu soube que estava grávida passei a fazer meditações para gestantes (Vide livro/CD Meditações para gestantes – Editora Sextante – Fadynha, 1989). Diante das recomendações médicas, ampliei a prática. Criei um ritual diário onde em horários diferenciados eu fazia preces, meditações, sessões de reiki, sessões de auto-healing (aplicações de energia amorosa no campo energético), afirmações positivas (que eu escrevia, falava, pensava e sentia) e visualizações. Durante o dia ao beber água eu a imaginava limpando e curando todo meu ser com alegria, luz e amor. Ao respirar de forma consciente pedia calma, luz, saúde e amor para o meu bebê. E à noite finalizava o processo com yoga para gestantes, preces, healings e meditações.
O sangramento e as dores foram diminuindo, e à medida que minha gestação avançava, meu bebê crescia forte, amado e saudável.

Os riscos de antecipar o parto, ter um bebê prematuro, perder o útero, sofrer uma intervenção mais séria e complicada durante o parto, foram um a um ficando distantes. O médico havia sido claro comigo, mas eu me concentrava na minha fé e meus esforços em estar bem, mantinha meu foco em gerar um bebê saudável, com alegria, saúde e amor. Imaginava e agradecia a minha auto-cura, minha gestação e parto serenos, saudáveis, tranqüilos e amorosos. Imaginava e agradecia um atendimento hospitalar alegre, responsável e amoroso. Pedia a Deus que cobrisse de bênçãos o hospital, as equipes médicas e todos aqueles que estariam conosco no momento do nascimento. A cada um dos familiares e amigos que me ligavam preocupados com meu estado, pedia que me ajudassem a manter vivo o elo de pensamentos, preces e sentimentos positivos, e assim segui em frente tranquilamente com minha gestação.

Vinicius, meu poema lindo de viver, nasceu saudável e tranqüilo numa linda manhã ensolarada, no primeiro doce sábado de agosto de 2007. Tudo aconteceu de forma tranquila, alegre e amorosa, melhor do que eu imaginara. Os enfermeiros e médicos que nos atenderam foram primorosos. Lembro nitidamente do chorinho suave que despertou-me para a maternidade às 10h15, assim como são vivas as lembranças dos nossos primeiros olhares... Dois olhinhos vivos penetravam meu ser com firmeza, como que a esperar por mim. Bom dia meu querido, seja e sinta-se bem-vindo – eu lhe saudei com amor. Assim meu pequeno acalmou-se e chegou ao mundo. E eu que vi em meio às lágrimas, boas emoções... e percebi: “meu milagre chegou...”
Após a cesárea, meu médico explorou meu útero, meu corpo a procura do mioma e brincou comigo: ‘’Lu, ué cadê o mioma, deixou em casa?” O mioma havia sumido tão inesperadamente como chegou...
E eu que achava que estava diante de um milagre, percebi que o amor de Deus se fez e é presente diariamente em pequenos e grandes milagres, quer nos demos conta deles ou não... E assim um outro milagre, o de um ser humano melhor a cada dia, silenciosamente se fez e se faz...
Deus nos provê diária e incansavelmente com o seu amor... E nós certamente podemos aprender com Ele, e se quisermos nos aproximarmos a sua imagem e semelhança se exercitarmos o amor.
Há males que vem para o bem, cabe bem para tudo o que vivi. Por conta de um mioma e muitos riscos concentrei-me no que era importante para mim e para o meu bebê e fui firme neste propósito. Mas aproveito o espaço para um convite para refletirmos e praticarmos o dito adaptado pelo sábio David da Banca: “Amar sempre faz o bem...” e certamente reconheceremos os pequenos mas importantes milagres que recebemos de Deus permanentemente...

Obrigada meu pequeno, por me ensinar tanto, tão cedo e sempre. Te amo, mamãe São Tomé... rs

Beijos da sua Mamãe Lu (Secretária, Psicopedagoga e Terapeuta Pontos de Luz)

Durante a gestação escrevi uma tese sobre gravidez, seus cuidados e o quanto a intervenção no campo de energia humano pode influenciar positivamente mãe e bebê, para que o intercâmbio amoroso, gere vidas mais saudáveis e felizes.

Voltar para histórias de mãesLuciana Feitoza
mãe do Vinicius
luz.feitoza@gmail.com

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